
A Primavera chegou a Lisboa e os dias pedem algo diferente. Porque não um passeio até à Graça? Deambular pelo bairro. Vadiar! E assim o fiz, com todos os meus sentidos.
“Se esperares até ás 6 ainda levas mais 50” ouço gritar no fundo do eléctrico assim que consigo entrar. Procuro a voz, localizo de onde vem. É o típico lisboeta bairrista que utiliza diariamente a coqueluche do turismo em Lisboa (o 28), não para visitar monumentos, bairros típicos ou vielas, mas sim para ir para o trabalho. Enquanto observo este e outros passageiros – na maioria turistas – o eléctrico segue a sua marcha.
Estamos no Bairro Alto, local da noite lisboeta por excelência. Estranho a ausência do cheiro da vida boémia. Mas, durante o dia, apenas as placas nas portas a anunciar “Mojitos e Caipirinhas 5€” nos revelam o que ele tem de melhor.
Mais uma curva-contracurva e aproximamo-nos do destino. Sente-se o cheiro a sardinha assada. Estamos em Alfama, cheira a Festas Populares. Essas que, durante todo o mês de Junho – quando a sardinha fica mais gordinha – fazem encher as ruas de alegria e folia. Nessa altura o 28 termina aqui. Mas hoje, ao contrário do dia 12 de Junho – a noite auge da festa – ele segue o seu percurso e lentamente chega à Graça.
Turistas e Alfacinhas (os lisboetas de berço) são brindados com uma pequena feira à saída do eléctrico. Uma tentação para ambos – as bancas recheadas por souvenirs (panos e pegas bordados; canecas e camisolas com dizeres da cidade) em conjunto com alguns prazeres da gastronomia portuguesa (azeite alentejano, queijos e aguardente de medronho). Uma mistura de cheiros: desde o plástico das embalagens, das tintas dos tecidos até ao cheiro forte dos queijos que nos transporta para o interior do país. Muitos vendem, poucos compram. Resistindo à tentação seguem o seu caminho.
Também segui o meu. Deambulo pelas ruas e sinto o cheiro da roupa lavada. Apenas aqui acontece isto acontece: caminhar no passeio e por vezes ter de alterar o percurso para não chocar com lençóis recém lavados estendidos nas janelas. Cheiro bom, em contraste com o das estações de combustíveis lado a lado com as casas de habitação.
Sigo para o Miradouro da Graça, e enquanto aprecio Lisboa à distancia, encontro a Maria Miguel, também ela uma turista portuguesa à descoberta destes recantos. “Quando olho deste lado para o Castelo, quase me parece um vaso gigante de Manjericos”. Diz isto com um sorriso, e eu sinto-me inundada pelo cheiro de tão especiais plantas. A flor das festas populares. Donas de um perfume intenso que contrasta cruelmente com a sua breve existência. Quase que um “existo enquanto for popular”.
E é com o popular em mente que descobrimos a Villa Bertha. É uma antiga vila operária, uma “pequena aldeia” dentro de um bairro. As suas origens identificam-se pelo estilo da construção: casas todas iguais com vasos de flores nas paredes, portas em madeira, varandas amplas que quase parecem jardins. Seus moradores vão fazendo conversa com os vizinhos pelas janelas.
Envolvidos nesta aura bairrista-operária seguimos para a Estrela d’Ouro. “As casas eram do dono da fábrica, assim como todas as mercearias e padarias. O dinheiro circulava sempre entre os mesmos. Capitalismo”. Explica-me a Maria. Com esta ideia em mente sigo até à Tasca do Jaime, tal como qualquer operário da Estrela d’Ouro desejaria ter feito.
Aqui, cheira a vinho branco. Reencontro os bairristas trabalhadores dos dias de hoje. Na sua maioria “aperaltados” para viver uma tarde de fado. O prazer dos sábados, domingos e feriados.
Laura, a esposa de Jaime, prepara um prato de pasteis de bacalhau. Pela sua simpatia e pelo cheiro dos seus pasteis rapidamente somos seduzidos pelo local.
Os Fadistas – a Fernanda, o Tony e o próprio Jaime – preparam-se para “vadiar com a voz”. É com o fado que nos contam histórias de amores perdidos, as mulheres sofredoras que nunca choram, assim como do tempo em que se acreditava num amanhã diferente.
Fado-Vadio assim lhe chamam, e apenas aqui, com “vadios” e como “vadios” é possível viver os dias de hoje e os dias outrora dos bairros antigos de Lisboa.
Anoitece, chega a hora de seguir caminho. Despeço-me da Laura e dos outros “vadios” e regresso ao 28.
Entro no eléctrico e procuro rostos familiares – rostos de bairro, vadios – mas já não os encontro. Tampouco encontro os cheiros. Ficaram todos lá.